Não sei por que estou escrevendo isso. É loucura. Não há motivos para eu estar aborrecido e todos os motivos para ficar feliz, mas...
Mas aqui estou eu, às cinco e meia da manhã, acordado e apavorado. Fico dizendo a mim mesmo que é só porque estou totalmente confuso com a diferença de fuso horário entre a França e aqui. Mas isso não explica por que estou tão assustado. Porque estou tão perdido.
Dois dias atrás, enquanto a tia Judith, Sarah e eu estávamos voltando de carro do aeroporto, eu tive uma sensação estranha. Quando entramos na nossa rua, de repente pensei, “A mamãe e o papai estão em casa esperando por nós. Aposto que estarão na varanda da frente ou na sala, olhando pela janela. Eles devem ter sentido muito a minha falta”.
Eu sei. Isso é totalmente maluco.
Mas mesmo quando eu vi a casa e a varanda vazia, ainda senti isso. Corri pela escada e experimentei a porta, até bati a aldrava. E quando a tia Judith destrancou a porta, eu explodi para dentro e fiquei no corredor escutando, esperando ouvir minha mãe descer a escada ou meu pai chamando do gabinete dele.
Foi aí que tia Judith deixou a mala cair no chão com estrondo atrás de mim, soltou um suspiro imenso e disse, “Estamos em casa”. Depois, Sarah riu. E me veio a sensação mais terrível que tive em toda minha vida. Nunca me senti tão completamente perdido.
Casa. Estou em casa. Por que isso parece uma mentira?
Eu nasci aqui, em Americana Hillwood. Sempre morei nesta casa, sempre. Este é meu velho quarto de sempre, com a marca de queimadura no piso de madeira de quando Sarah e eu tentamos fumar escondido no quinto ano e quase sufocamos. Posso olhar pela janela e ver a grande marmeleira, que Sarah escalara para invadir a festa do meu aniversário há dois anos. Esta é a minha cama, minha cadeira, minha cômoda.
Mas neste momento tudo me parece estranho, como se este não fosse o meu lugar. Eu é que estou deslocado. E o pior é que eu sinto que pertenço a algum lugar, mas não consigo descobrir qual é.
Ontem eu estava cansado demais para ir ao primeiro dia de aula. Sarah pegou meu horário para mim, mas eu não tive vontade de falar com ela ao telefone. A tia Judith disse a todos que ligaram que eu estava dormindo, mas ela me olhava de um jeito estranho no jantar.
Mas hoje vou ter que ver o pessoal. Temos que nos encontrar no estacionamento antes da aula. Será por isso que estou assustado? Será que tenho medo deles?
Era tudo tão completamente ridículo.
Desde quando tinha medo de encontrar alguém? Desde quando tinha medo de alguma coisa? Eu me levantei e passei os braços com raiva. Nem olhei para o elaborado espelho vitoriano acima da cômoda de cerejeira: sabia o que veria ali. Sou o garoto que toda menina queria ter e todo menino queria ser. Que agora tinha uma careta incomum na cara.
Um banho quente e um café e vou me acalmar, pensei. O ritual matinal de se lavar e se vestir era tranquilizador, e eu demorei nele..O espelho mostrou um garoto com um sorriso secreto. Meus temores anteriores derreteram, esquecidos.
Fui para a varanda. E parei.
Todas as sensações ruins da manhã tomaram-na de novo. A ansiedade, o medo. E a certeza de que alguma coisa horrível estava prestes a acontecer.
A Rua das Flores estava deserta. As altas casas vitorianas pareciam estranhas e silenciosas, como se todas estivessem desocupadas, como as casas de um set de filmagem abandonado. Todas davam a impressão de não conter gente, mas sim coisas estranhas que a observavam.
Era isso; alguma coisa me observava. O céu não estava azul, mas leitoso e opaco, como uma tigela gigante virada de cabeça para baixo. O ar era abafado e eu tinha certeza de que alguém me olhava.
Tive um vislumbre de alguma coisa na frente da casa.
Era Sarah. Eu sorri e respirei fundo, dominado pela luz do sol. Era um lindo dia, cheio de promessas, e nada de ruim para acontecer.
Por um momento me perguntei, mais uma vez, se devia desistir de tudo. Talvez devesse voltar à Itália, em meu esconderijo. O que me fazia pensar que podia voltar ao mundo da luz do dia?
Mas estava cansado de viver nas sombras. Estava cansado da escuridão e, das coisas que viviam nela. Acima de tudo, estava cansado de ficar só.
Sarah apreciava o respeito pelo passado. Pensei que poderia vir a gostar das pessoas de Americana Hillwood. E talvez — só talvez — pudesse encontrar um lugar entre elas.
É claro que nunca seria completamente aceito, mas nunca haveria um lugar onde eu pudesse se sentir inteiramente à vontade, onde pudesse ser verdadeiramente eu mesmo, quanto naquele momento em que estava com Sarah.
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